sábado, 24 de setembro de 2016

NAUS DE AGORA



                                                       (Glosa da conhecida cantiga de amigo do rei Diniz)


Já vai longe, longe, a caravela
e  o sol a bordo dela.
Ai Povo, e u é?

Flutua airosa como só ela
de vela panda, lá vai ela, lá vai ela.
Ai Povo, e u é?

A estibordo não há ninguém,
não sei se vai, se vem.
Ai Povo, e u é?

E quem vem nela, quem nela vem:
traições, arbítrios, zés-ninguém…
Ai Povo, e u é?

Águas mortas, mortas ao abandono,
até as areias têm dono.
Ai Povo, e u é?

Mais já não posso, mais já não digo,
não me vá pela sorte o castigo.
Ai Povo, e u é?

De tanto mar, de crenças mil,
serão trovas ou lembranças de Abril?
Ai Povo, e u é?

Ai Povo, e u é?

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

(H)ORA ESSA


As que batem como avisos e cautelas;
as que voam, e que faltam, as quebradas;
as que se entranham como sovelas;
as sem conto e as que se exibem badaladas.

As horas são a saudade de as bem ouvir
ao ritmo da contagem sempre crescente:
uma, duas, três… no seu ofício de mentir
dentro de nós, em contagem decrescente.

E as horas do futuro, que horas são?
Essas já não sei, não serão horas do meu tempo.
Simples ou dobradas, horas ou não,
já não poderei tê-las e ouvi-las, lamento!

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

AS PALAVRAS DE SEMPRE



Antigamente, quando as palavras desciam
para o papel ainda frescas, eu brincava com elas.
Empertigava as mais humildes,
convencia-as de que eram como árvores gigantes
e outras, mais arrogantes, escrevia-as com letra de médico,
só para as confrontar e me comprazer.
Havia ainda as que riscava por serem inconvenientes
e as que camuflava para fingirem um sentido diferente.
Depois sorria para elas, pedia-lhes desculpa
e retomava o caminho insondável do poema.

sábado, 17 de setembro de 2016

DESARRUFO


Há dias em que o verbo não sai,
além de gralhas, brancas e azia.
Ai!
O mal que me faz a poesia…

Outros, em que a vida é modorra
de tão madrasta e vazia.
Porra!
Vem - estava a brincar - poesia!

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

O CAMINHO DAS AVES


Vão agora para sul, as aves ainda há pouco arribadas!
Vão agora para sul.
É o seu rumo, a romaria da sua natureza e condição,
é o seu rumo,
que para trás só deixam inquietude e penas já usadas,
que para trás só deixam inquietude.
e toda a vida na bagagem até clamarem nova arribação.
E toda a vida na bagagem.

terça-feira, 13 de setembro de 2016

O SOL


Aí vem ele, de leste, como sempre;
como nunca, inigualável luz do céu.
E eu cá de baixo acenando-lhe que entre,
que se sirva, como se tudo fosse seu.

E ele, o Sol, em fogo, é um menino
sorrindo às vezes, quando não uma careta
e segue determinado o seu destino
para o lado oposto e põe-se na alheta.

Gosto dele sempre e sem ressentimentos
e não vou atrás das rezas, contra os elementos,
como em bênçãos e preces  lhe faz o povo.

Sobre ele, o que recebi de ensinamentos
é que não é eterno nem são dele os fingimentos.
Digo-o eu, que também não vou para novo.

domingo, 11 de setembro de 2016

VÃO PENTEAR MACACOS


Há por aí criaturas, de ressaca,
que garantem que o leite em pó
(nada tendo a ver com o da minha avó)
é de vaca.

Que os sumos, embalados de forma astuta,
e calibre segundo sabores e formas,
respeita a lei e apertadas normas
e sabe a fruta.

O jamon, que é presunto de pata negra,
é espanhol de origem, nunca de Barrancos.
Isso juram pela mãe de todos os santos,
segundo a regra.

E anunciam a pequena maravilha
de bisnaga, essência de vaselina,
com sabores e extractos de areia fina,
que arde na virilha.

Ainda um kit com cheiro para os sovacos,
champô e gel de banho com essências,
tudo das melhores proveniências.
Vão pentear macacos!

quinta-feira, 8 de setembro de 2016

ORGULHO


No arrumo que tenho para inutilidades
guardo um embrulho em papel de seda,
com um laço de renda fina, encarnado.
Dentro, pouco importa, sendo inútil,
uma colecção de orgulhos vários, a estrear.

Um deles hei-de usá-lo sem que alguém note,
mas que me sirva de agasalho ou amor próprio;
outro será para quando morra, todos vejam
quanto orgulho terei em ter chegado ao fim
de corpo inteiro.


terça-feira, 6 de setembro de 2016

LÁGRIMA



A lágrima é uma porção de mágoa
que aflora
rosto afora
e o choro corre dentro dessa água.

sábado, 3 de setembro de 2016

A MORTE, SEGUNDO O VERSO


Morri ontem à tardinha
de cansaço e desespero
e, permitam-me o exagero,
foi tudo ideia minha.

Desliguei nervos e veias
e válvulas do coração.
Hoje provo que a ressurreição
existe nas almas ateias.

Não posso provar que morri,
nem as maleitas fatais
que matam menos ou mais,
só garanto que renasci.

Chamemos-lhe reciclagem:
é mais terreno e conciso
e basta não ter juízo
para voltar à viagem.

Por um verso desgraçado
e as voltas que me fez dar
vi-me morto, a estrebuchar,
com ele no cérebro encalhado.

terça-feira, 30 de agosto de 2016

À LUZ DO TEMPO


De espera se faz o tempo
de um e de outro lado:
melhor, é esperar atento;
pior, é não ter esperado.

Há um momento dado
em que  pode o vento
delir, por ser soprado,
e já não chegamos a tempo.

domingo, 28 de agosto de 2016

PENSO, POSSO E PASSO


Há coisas que não faço,
se me dão pelo pescoço:
ponho-lhes em cima um traço,
não as quero ou não posso.

E é então que penso
naquilo que afinal faço,
que ainda assim é imenso,
ao todo, em pouco espaço.

Às vezes é que não posso
por ser demasiado extenso:
bato o pé direito e destroço
e assim já nem as penso.

Faço portanto o que posso,
o que é dado que faça
e deixo preparado um esboço
enquanto o tempo não passa.

E é assim que me convenço
em tudo o que ultrapasso:
se posso, passo e penso
é porque penso, posso e passo.

sexta-feira, 26 de agosto de 2016

MEIO SEGREDO



Ainda não, mas vai acontecer um dia
esmerar-me e contar-vos um segredo,
digo, meio segredo, por simpatia,
de modo a continuar segredo.

Se vos contasse tudo perdia
o segredo e a história toda a graça.
Assim, pela metade, fica para outro dia
o alvoroço da praça.

Contando que vos conte um dia
o segredo meio guardado,
pode a notícia tardia
ser mais do vosso agrado.

Ou não. Se então já não tiver
meias palavras de lado,
tanto faz ter como não ter
meio segredo guardado.

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

POEMA CONSEGUIDO (QUASE)


Era uma vez uma borboleta
de vida efémera e pouco lisonjeira,
de olho nela estava um poeta
de sorte igual e vida passageira.

O pouco tempo de vida airada
foi voar, voar, voar, voar…
que um só momento poisada
lhe causavam falta d’ar.

Voou então a seu bel-prazer,
de flor em flor, à sorte,
até que um dia, antes do sol nascer,
poisou nela, inevitável, a morte.

domingo, 21 de agosto de 2016

O PROBLEMA DA ALIMENTAÇÃO



Incapaz de uma lágrima de água benta,
choro o animal com vestígios de fome
e jamais aquele que por fome me alimenta,
por assim ser irrelevante se o bicho come.

Se porventura a alimentação for vegetal,
por regra, já nada me constrange ou apoquenta:
ajuda a digestão, dizem, não faz mal
e é mais aconselhável a qualquer dieta.

Uma certa dúvida entretanto permanece:
se o vegetal não me comove e faz boa digestão
e é a carne pecadora o que mais me apetece,
o mal não está em mim; é problema da alimentação.