sábado, 25 de fevereiro de 2017

OS MELROS


Esperando a Primavera que não chega,
o melro afina o canto, tenta a sorte,
e enquanto ela não vem, não sossega,
vai cantando, vai fazendo a corte.

Traja solene, de preto  e a rigor,
enérgico, de olhos brilhantes, astutos;
encharca-se, que é já muito o calor,
e entretanto vai debicando os frutos.

Quando serenar, cuidará dos haveres,
cioso, sem descanso ou intervalo.
São graciosos estes pequenos seres,
e nós somando Primaveras, mas deixá-lo.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

SCHERZO



Fila harmónica de gaivotas
Gaivotas em harmónica fila
Gaivotas em fila harmónica
Filarmónica de gaivotas

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

OVINOS


Umas são cobertas,
outras tosquiadas.
Se as contas estão certas,
(incluindo as paridas,
as novas e as velhas)
ao todo cem vidas
o rebanho de ovelhas
subsidiadas.

Carneiros há dois
de presas garbosas
e de maus lençóis.
Borregos contados
são três quarteirões,
salvo os desmamados
já aos encontrões
às ovelhas ronhosas.

domingo, 19 de fevereiro de 2017

A VELHA ÁRVORE



Não sei se a árvore já existia quando a Terra
ganhou nome e vida e outras árvores
com poemas pendurados nas folhas e nas flores.
Sei que a árvore e a Terra já eram Terra e árvore
quando dei por elas e as pude tocar
e não me inquieta a sua idade ou se me vão sobreviver.
Não lamento esta ignorância,
tudo nasce ou morre por alguma razão.
Hei-de aprender com elas,
porque sempre temos tudo para aprender,
mesmo depois de julgarmos que já aprendemos tudo,
e beijar as duas como irmãs mais velhas.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

ERA UMA VEZ A CIDADE


O frio agudo; a aura breve,
foram sinais da novidade:
diminutos flocos de neve
vestiram de branco a cidade.

Por natureza inclemente,
de extremos na temperatura,
hoje frio; amanhã quente,
e só nas gentes brandura.

E assim, de noiva trajada,
tão a rigor como o gelo,
fica ainda mais prendada;
mais branca que castelo…

Porém, meteorologicamente,
- o tempo que faz e que fez –
há-de ser verão novamente,
e Castelo Branco outra vez.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

BIBLIOTECA GULBENKIAN


Para juntar a magia das letras,
que com outras letras edificam
palavras e, com outras palavras,
constroem sonhos, que com outros sonhos
fazem crescer, ser gente
com o mundo todo à volta.

E ficámos a saber que o mundo dava voltas
e nas voltas que dava tinha letras,
que com outras letras se edificavam
palavras e, com outras palavras,
ensinavam que o mundo girava, girava, girava
e era redondo como os sonhos.

domingo, 12 de fevereiro de 2017

ÁRVORE REFLECTIDA NO RIO


O cabelo solto nas águas do rio
no momento preciso em que te vejo
é, árvore de encanto, o desafio
de te comemorar num beijo.

Quis o destino, disse então,
olhar-te tremente na água fria
e depois beijar-te a delicada mão
ou ramo, oferecido à luz do dia.

Permaneceste imóvel, imaculada,
sem folhas, sequer um fruto por inquilino.
Só o rio, de nós três, caminhava
rumo à foz, ao mar, ao seu destino. 

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

A MERCEARIA


O avio era mensal e a pagar no mês seguinte.
Tudo passava pela balança e não havia embalagens
que nos obrigassem a um quilo, se a precisão
fosse de duzentos e cinquenta gramas.
Os cheiros contavam para a avaliação da compra:
O café, o açúcar amarelo, o bacalhau…
- E o que vai ser mais?- Perguntava o merceeiro.
- Ah, já me ia esquecendo, cebolas para o refogado…
este mês não levo azeite, ainda lá há uma pinga.
No acerto das contas (as do mês anterior)
o dono da mercearia acrescentava uma mão de rebuçados
à demasia para não ficar sem trocos.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

O AMOLA-TESOURAS


Ouvíamos o realejo ao longe,
vai haver chuva, diziam primeiro lá em casa.
Depois corríamos à procura do som:
Ti-ri, ri-ri-ri; ti, ri-ri,ri, ri-ri…
Era um homem tão puído de roupas
como o esmeril que fazia rodar, cabelos de fogo,
sempre a girar, a amolar
os nossos gumes rombos de um ano inteiro.
Só um homem pobre poderia sujeitar-se
àquela chuva miudinha e ao frio,
a afiar e a pedalar, a pedalar e a afiar.
Satisfazia- nos a nós, que tudo ficava no fio,
por dez tostões, tudo cortava melhor
e a provisória felicidade ficava-nos em conta.  

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

O GRILO


Quem disse que o grilo tem cornos
e canta,
se o homem que os tem
fica com o nó na garganta?

O grilo tem antenas.
Canta,
apenas.

sábado, 4 de fevereiro de 2017

A PULGA


A pulga pula
de pelo em pelo
e salta,

suga, estulta,
pouco a pouco
o sangue suga.

A pulga avulta
gota a gota
e muda.

Se resulta,
chupa, chupa
e deglute.

Insone, cata-
pulta e some
a puta.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

O CORVO


Ah corvo maldito
de faca afiada!
Se é fome, acredito,
fome danada!

Teimo e repito:
p’ra que usas faca
ah corvo maldito,
se a carne é fraca?

Se quiseres come
bicho ruim
mata a tua fome,
não me mates a mim.

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

O ESPELHO DA ILUSÃO


A ilusão é ver o que não se vê
e crer, apesar disto,
que o que vemos o não é,
ou porventura foi  mal visto.

E então pomos de lado
o tacto, o paladar a vista, o ouvido
e até o cheiro é negado
invocando um sexto sentido.

domingo, 29 de janeiro de 2017

SOBRE O AMOR


Outrora eram bem aceites os poemas,
que escrevia sobre o nosso amor
e o fumo etéreo dos cigarros.
O jazz ocupava-se do ambiente tranquilo,
a noite corria sem pressa nem lugar para onde ir.
Com o tempo, as estrofes perderam muito
da poesia de então; o tabaco
foi escorraçado do bar e até o jazz
substituíram por outros sons menos inconvenientes.
O amor, nascido sem pressa nem prazo de validade, permanece.
É sobre ele que te escrevo agora estes versos.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

BRANCA DE NEVE E OS SETE ANÕES


Eram anões todos eles,
constam sete,
do mais ousado ao mais reles.
Sete, nem mais nem menos: sete.

Garimpeiros de profissão e passatempo
(os anões) cantavam trá-lá-lá
por contentamento
e para a princesa, claro está.

Veio então a bruxa e a maçã,
que juntas são veneno e são ciúmes,
a morte temporã
nesta história de costumes.

Mas aqui não houve jornais
Interessados na bruxaria
e se houve magistrados e tribunais
ficaram em banho-maria.

Houve um príncipe neste ensejo,
que fez as vezes dos juízes,
dando à princesa um beijo
e foram muito felizes.

Contei de novo a história,
eis a prova:
se a tinha ainda na memória
como poderia ser uma história nova?

Por que havia de inventar
uma justiça que morde e não beija
e a morte que não seja a brincar
assim, servidas de bandeja?