quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

O INEXPUGNÁVEL BISTURI


1.
De finíssimo recorte,
técnica apurada,
com um pouco de sorte
não dói nada.
Da sorte e, a bem dizer,
da anestesia,
que a frio faz doer
em demasia.
Quase que dá,
um arrepio de medo
e depois se saberá,
que ainda é cedo.
Não rasga, fende
ritual, litúrgico.
Mal de quem depende
dum bisturi cirúrgico.

2.
Há pouco estava aqui
ocioso, esterilizado,
- disse o cirurgião - o bisturi.
Tem de ser usado
ou o paciente morre,
coxeará, talvez…
(anda mas não corre)
ou vai-se de vez.
Poderá ter sorte
de aprendiz,
e escapar à morte
por um triz.
Fiquemos por aqui,
assunto resolvido.
E o bisturi,
onde se terá metido?

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

TRÊS POEMAS HÍBRIDOS DE PENDOR FILANTRÓPICO


1.

Amealhei cuidadosamente
as velhas lâminas de barbear,
os sapatos incapazes de novas meias-solas,
o pó dos livros e as fitas e os laços
das últimas prendas de natal.
Guardei com ternura os neologismos falhados,
que treparam a memória distraída.
Espero que o tempo e a erosão
confirmem este poema ecológico.

2.

Se, das velhas lâminas,
contasse que nos seduz ainda o marketing
das suas embalagens importadas,
Se vos lembrasse que, hoje, o couro dos sapatos
é quase a nossa pele curtida,
que não lemos porque o pó se acama
além dos livros, na cultura,
e o natal vai ficando oco como os chocolates,
enquanto nos restam cada vez mais apenas fitas e laços,
assim não teria que inventar mais palavras:
este seria um poema político.

3.

Mas se insistisse, ridículo,
acreditando nas pelo menos quinze barbas
que promete cada lâmina,
na cor dos sapatos, no verniz dos laços e fitas,
que cada natal anuncia em capa de revista
(papel cromolux, high color, assinatura por um ano e porte pago)
certamente colhido pelas palavras
alheias ao texto, mal dormido,
deixaria por legado
um poema sem consequências.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

AUTOCLISMO



O mundo encheu-se de mentiras,
milhares de caritativas mentiras.
Muitas fazem crer que o trigo
nasce com a espiga para baixo
e outras tantas, que não há solução
para tal enfermidade.

Confesso que por vezes sinto raiva
da pequenez humana que me cerca…
reflito depois e, pensando melhor,
limito-me a assegurar que o esgoto
funcione para a fossa e o entulho
nauseabundo siga o seu caminho.

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

OUVIR


Envelhecemos como as pedras
e o primeiro sinal é não ouvir; ouvir mal.

Treinámos a vida inteira,
fomos selectivos , usamos filtros.

Mas agora não. É o sentido
que definha e morre o bicho do ouvido.

Às pessoas pedimos que repitam
e o tom da música temos de subi-lo.

Mas o chilrear dos pássaros
e o assobio da brisa nos ramos da árvores
não há como tê-los decorado:
é tarde agora para os aprender
a quem nunca lhes dedicou uma só ária. 

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

COMO NASCE UM POEMA


Volto a estes pobres versos,
que se entranham na poalha
dos papeis onde estão imersos
como se fossem mortalha.

Vivos, asseguro que estão,
pois respiram ou, melhor dito,
arfam. Creio que é da solidão,
que deixa qualquer um aflito…

Puxo por eles. Como atrás disse,
são versos declinados, sem conteúdo,
nunca disseram nada que se ouvisse,
cuidando que ser verso é tudo.

Fui tentado mais uma vez
a deixá-los em repouso e sem stress.
Pensei: “como não há duas sem três
vamos ver o que acontece”.

Juntei-os aos demais dispersos,
fiz-lhes festas, dei-lhes carinhos
e concluí: o poeta é quem mima os versos
mas os poemas nascem sozinhos.

sábado, 26 de novembro de 2016

AGORA O TEMPO



O tempo cá vai andando
em passo outonal, a cores,
chuva e sol, variando,
conforme os seus humores.

Agora um frio de rachar,
(dizem, de cortar à faca)
não dá para apanhar ar,
nem espreitar da barraca.

É sempre a roda do tempo
que decide os pormenores,
salvo qualquer contratempo
do anticiclone dos Açores. 

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

IMAGINÁRIO


Há quem veja além…
o que não vê:
ilude, ilude-se, crê,
para ver o que convém.

Isto tem que se lhe diga,
fazer de conta que come;
arrisca morrer à fome,
com mais olhos que barriga.

terça-feira, 22 de novembro de 2016

O DIABO NÃO VEM



Rosnou e rogou praga
o inepto com desdém
e não há gente que lhe traga
nem diabo nem ninguém.

Tal era o bicho careto
(feio, chifrudo e mau)
que por vergonha ou medo
não passa de um cara de pau.

Tudo afinal está conforme.
Mas na certeza, porém,
que nem o povo dorme
nem o tal diabo vem.

domingo, 20 de novembro de 2016

A FACE E O VERSO


Se o mundo tivesse rosto
seria ainda mais evidente,
numa das faces o sol posto
e na outra o sol nascente.

Tal como a cara da gente,
que não seria suposto,
entrar em quarto crescente
com mataduras no rosto.

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

DO DISCURSO


Não demovo
a cor ao cravo
e de novo demovo
a casca ao ovo

enquanto me comovo
com o cravo
como o ovo
e aprovo o cravo
uma ova a cor do ovo

pelo povo não demovo
a cor ao cravo

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

ELEIÇÃO



Carlota era uma mulher feliz
até que um dia, como agora diz,
procurou  taluda na matriz
e decidiu a questão com um xis.

Na verdade saiu-lhe furado
o intento de um bom resultado:
bom foi ele para o sítio errado;
acertou em cheio, mas ao lado…

Hoje grita: que “foi engano,
quis na conversa do fulano”
e agora lhe causa mais dano.

Carlota cuidou ser correcto
mas foi como engolir cianeto;
pior a emenda que o soneto!

segunda-feira, 14 de novembro de 2016

POEMA DIURNO


Não nasce a noite em lugar algum:
a noite é somente a morte de mais um dia;
o intervalo vazio e escuro
entre o entardecer e a madrugada.
Não nasce a noite em lugar algum:
dar à luz supõe a claridade do dia;
a treva, o sono eterno e sem regresso.
Agora mesmo fujo à escuridão da noite,
aos pavios e néones de imitação
e navego no meu barco com o mundo inteiro
à bolina e ao sol que além me espreita.

sábado, 12 de novembro de 2016

CAIS DE EMBARQUE


Ancorada a caravela, que mais posso
se não amarrar com ela, junto ao cais
e pedir, de proa ao vento, um osso,
uma sopa aguada e pouco mais?

Já tudo está à vista; a limpo e descoberto:
dúvidas e sombras dantes cultivadas,
hoje são pobres ilhas ou desertos
sem gente, almas e outros predicados,

que não seja luto, fealdade e desamor;
consentimento de fé, gente profana,
dependendo apenas do letal valor,
seja planta, bicho, mineral ou raça humana.

Pela verdade, voltando ao ponto de partida,
desenhado no cais, parede da memória,
que posso ser, quem me dá o silvo de partida,
onde acabo eu e começa a história?

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

DAS ÁRVORES



Alegria incompleta onde as palavras
nidificam entre pássaros e metáforas

em cada madrugada tingem mais de pólen
e sobressalto o empedrado das avenidas
das solenes avenidas com bar ao fundo

respiração avulsa e inquietude
é quanto as árvores podem dar-nos
se ainda tivermos tempo e fingimento

terça-feira, 8 de novembro de 2016

DAS PEDRAS


Gritam até ao limite do silêncio
- única manifestação consentida
que se saiba conhecem o segredo dos sismos
e a religião das sementes estéreis
não se provou que calem
as lágrimas dos pássaros vagabundos
e enquanto projécteis é irrelevante
investigar se dormem

afinal de contas as pedras são o que são
embora não se dê por isso