segunda-feira, 24 de abril de 2017

ABRIL SEMPRE



Noites foram mais de mil
para aquela manhã doce,
que haveria de ser Abril
por um cravo só que fosse.

Por um cravo só que fosse,
que haveria de ser Abril,
para aquela manhã doce
noites foram mais de mil.

Para aquela manhã doce
noites foram mais de mil
por um cravo só que fosse,
que haveria de ser Abril.

domingo, 23 de abril de 2017

TODAS AS MANHÃS



Todas as manhãs acordo com a incómoda veleidade
de escrever o poema duma vida.
Aspiração patética e vã: a poesia não é determinável!
Nasce nos olhos, percorre as veias, anda por aqui
saltitando como uma corsa em tempo de cio,
oferecida ao impulso masculino da preservação da espécie:
mentiras rebuscadas, arredondadas, rimadas…
A poesia vai no sangue e não consigo estancá-la
para vos mostrar o poema da minha vida,
para vos dizer o poema que tenho em mim,
para vos poemar o que nunca explicarei convenientemente.

Não é fácil suster o ímpeto de dizer
tudo aquilo que o poema leva dentro
e eu dentro dele ou ele dentro de mim.
Primeiro vêm as águas – umas feitas de violentas ondas,
outras quase riachos à procura da foz,
que os liberte enfim da opressão das margens –
Depois, tudo acalma e se transforma em bolas de sabão…
As palavras chegam por fim. Enxutas, buriladas,
mas nem sempre exactas; raramente verdadeiras.
Às vezes são como um sol brilhante e quente e outras
não  passam de pequenos anjos seminus,
chorando para que lhes mude a fralda…
Todas as manhãs o mesmo incómodo, todas as manhãs!

sexta-feira, 21 de abril de 2017

CATECISMO


O velho catecismo, surrado pelo tempo
nos azuis e vermelhos da capa, perdeu há muito
o encanto das novenas do mistério e da fé.
Racharam as bochechas rosadas dos anjos papudos,
pela procura incessante do verbo, que deixou marcas
de unto sombrio da saliva usada nos cantos das páginas
e um cheiro impróprio para a santidade do caderno.
Mantem intactos os dez deveres
capazes de elevar aos céus o magote de louva-a-deus
de carne e osso
já acostumado aos incontáveis nãos da natureza.
Apela às almas doces e ingénuas:
Brada aos seus, brada aos céus!


quarta-feira, 19 de abril de 2017

EM REVISTA



Levo algum tempo observando sóis e luas
ao desafio com as nuvens e correndo à minha frente,
todos os dias, sem esperas nem abrandamento.
A vida é uma constante observação das nuvens:
as que nos impedem de ver a claridade, as que fingem
desenhar presságios ou apenas vão ao sabor do vento
e das que choram, derradeiramente em cima de nós.


Antes via os salgueiros à beira do rio
e pareciam-me prédios duma avenida futurista,
que apenas a imaginação cuidava;
hoje vejo os enormes arranha-céus, ao longe,
e a fantasia traz-me de novo os salgueiros da infância.
A culpa é minha, que acredito no simulado paraíso
das neblinas matinais e na poesia dos salgueiros.

segunda-feira, 17 de abril de 2017

UVAS


Uva é uma palavra cheia e colorida
de embriagada fantasia:
sonhos, imaginação e porfia;
metade pura ilusão, outra metade vida.

quarta-feira, 12 de abril de 2017

CAPITAL (IN)VESTIDO


Não é de cambraia, tampouco popelina,
É mais o tipo de riscado de qualidade má,
ou seja, o que parece nobre, coisa fina,
não passa de forro, de oculto tafetá.

Faz-se anunciar em tules e brocados,
e passa por fidalgo pano ou pura lã.
Não é mais que fios entrelaçados
de mais-valias dum tecelão ou tecelã.

O mesmo nos privados panos intestinos:
badaladas bolsas e demais adornos,
bonés, chapeletas, adereços bovinos
e nessas passerelles (in)vestem, os cornos.

domingo, 9 de abril de 2017

AMBULÂNCIA


Por indisposição ou maleita,
suspeita de apendicite, coisa ruim,
eis a solução perfeita
mas deus me livre a mim!

Entre a moléstia e a cura,
não há como encurtar distância
- a quem realmente a procura –
e a melhor forma é de ambulância.

Coisa moderna, rápida e segura
e luzes azuis a acender e a apagar,
que rompe com desenvoltura
estorvos, caminhos, até chegar.

Com todos os equipamentos
de primeiros socorros e, para ser franco,
lá dentro, profissionais atentos
e uma enfermeira de branco.

sexta-feira, 7 de abril de 2017

BATERAM-ME À PORTA



Um par de criaturas bateu-me hoje à porta.
Trajavam: ela saia e casaco, ele fato completo,
só pelo incómodo de me ensinar letra morta,
por cartilha nova e ascendente  alfabeto.

Tresandavam, de sorrisos largos e de certezas,
com todos os demónios presos na trela,
submetidos à razão e meia dúzia de rezas,
por um dízimo mensal, autêntica bagatela.

Por fim, vendiam-me um deus novinho em folha,
senhor do mundo, como eloquentemente ensina,
para deixarem, em folheto, à minha escolha,
a vida ou a morte e um cheiro insuportável a naftalina. 

quarta-feira, 5 de abril de 2017

SEM-ABRIGO


Nos dias cinzentos,
que os tempos dão
faz-se das tripas
coração.

Um dia sem sol,
como por castigo,
tudo do mesmo rol
para o sem abrigo.

segunda-feira, 3 de abril de 2017

OLHOS CRISTALINOS


Teus olhos frágeis de cristal
são como luas e, no fundo,
duas pedrinhas de sal,
que dão tempero ao mundo.

sábado, 1 de abril de 2017

OLHAR FURTIVO


Espreito os teus olhos a medo
por não serem olhos de ver;
são antes, em ti, um segredo
de algo que não querem dizer.

quinta-feira, 30 de março de 2017

OLHOS D'ÁGUA



Nos teus olhos posso naufragar
do jeito como os navego;
resistindo sem nunca me afogar,
de vivo olhar, exausto ou cego.

terça-feira, 28 de março de 2017

OLHOS DE VER


Olhas com os olhos cobertos,
como se não quisesses ver,
e não te deixares prender
por quem tem os olhos abertos.

domingo, 26 de março de 2017

OLHOS NOS OLHOS


O mar adormecido, a brisa fina de raspão na pele,
oásis, o manto aveludado dos nimbos, são fantasias,
posso garantir-te agora, olhos nos olhos.

sábado, 25 de março de 2017

POESIA DE LEI



Passo a vida a cumprir leis, estas e não aquelas,
por isso também infrinjo normas e decretos
e regulamentos e mandamentos avulsos,
que terei sempre de observar,
mesmo que nunca os tenha visto mais gordos.
O legislador é como um alfaiate,
que talha e corta o pano conforme o cliente
e põe em prova com a habilidade e a arte dos alfinetes;
como um camponês, que enterra o arado
e rasga a eito a terra a semear o que o tempo lhe permitir,
o que for subsidiado, o que for abençoado.
É o que me dizem. Só não compreendo por que tem de ser
um funcionário com cara de poucos amigos ou
um polícia com mau hálito
a explicarem-me os imbróglios em que me meto, segundo a lei.
Estarei atento ao relatório da medicina legal,
curioso por saber a morte que de direito me cabe,
coisa que ninguém terá obrigação de me explicar,
para não dizer que é inútil insistirem.
Ninguém é obrigado a fazer o impossível.